Agronegócio no
Brasil
O agronegócio
representa em torno de um terço do PIB brasileiro, razão pela qual é
considerado o setor mais importante da economia nacional. Wikipédia
https://agrimec.com.br/blog/porque-o-agro-do-brasil-alcancara-um-trilhao-de-dolares-em-2027/
Porque o Agro do Brasil alcançará um trilhão de dólares em 2027
Pegamos carona no SEBRAE Talks Agronegócio, os 5 dias de conversação online sobre o futuro do agronegócio brasileiro, organizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.
Na
oportunidade, Marcos Fava Neves* trouxe as perspectivas para o agronegócio
brasileiro a partir de uma análise da balança comercial e
dos últimos resultados atingidos pelo setor.
O objetivo da fala foi contextualizar
os últimos anos do agronegócio e explicar como o produtor pode construir
margem a partir das perspectivas que se apresentam.
E ele afirma: em 2027, o agro
alcançará um trilhão de dólares em receita.
Em pouco mais de 50 minutos de
fala, Neves explicou como e porque o Brasil dará esse salto nos próximos 10
anos.
A afirmação chamou tanto a nossa
atenção que resolvemos elencar os principais pontos da fala do engenheiro
agrônomo, no texto a seguir.
E como é de se esperar, atente-se desde já para estas duas palavras: exportações e tecnologias.
Os grandes números de 2018
Se existe algum fato que confirma
a possibilidade do agronegócio alcançar seu primeiro trilhão de dólares em
2027, esse fato é 2018.
Foi neste ano que a agricultura
recebeu uma das melhores notícias para o setor, na visão do
professor.
É que a China passará a misturar
10% de etanol na gasolina, até 2020.
Isso vai criar um mercado
adicional de milho de 40 milhões de toneladas, o necessário para os
chineses alcançarem essa meta.
Outra grande potência, os EUA,
fez isso em 2005 e, atualmente, consome 140 milhões de toneladas, todos os
anos, só para a mistura com o etanol.
E o que o Brasil tem a ver com
isso?
Tudo. A capacidade de expansão,
em área e produtividade, das terras brasileiras o coloca como principal
produtor nesse cenário.
Foi em 2018 também que produzimos
228,3 milhões de toneladas, fazendo desta a segunda maior safra no
quesito produção.
A seca nos meses de maio e junho
que atingiu em cheio a segunda safra do milho e grande parte das lavouras de
trigo, principalmente no Rio Grande do Sul, impossibilitou o novo recorde.
Por outro lado, a [situação da
Argentina] e a variação cambial somaram pontos a nosso favor.
A dupla soja e
milho como sempre dispararam os números.
Foram 119,2 milhões de toneladas
da primeira e 81,3 milhões do segundo, resultado que coloca o Brasil entre os 3
maiores produtores mundiais destes alimentos.
Os 61,7 milhões de hectares
colhidos também tiveram destaque com aumento de 4,1% de um ano para o outro.
De 2008 pra cá, a área plantada
no Brasil cresceu cerca de 70%.
Destaque para o município de
Sorriso, no Mato Grosso.
O estado, que já é o maior
produtor nacional de soja, viu a cidade injetar, sozinha, incríveis 3,3 bilhões
de reais na economia do país.
São 3,3 bilhões impulsionando
vários outros setores: comércio, indústria, bens e serviços.
Em termos de exportações,
comercializamos 9,3 bilhões de dólares, 3,6% a mais que na safra
2016/2017.
A soja contribuiu com 4 bilhões
nesse montante, com 43% de aumento em relação a penúltima colheita.
A influência da China destaca-se
também aqui. Os asiáticos passaram a comprar de 26% a 36% de tudo que
comercializamos no último ano.
Ao final de agosto, somente o
agronegócio brasileiro deixou um saldo de 60 bilhões de dólares, em relação
a outras áreas que somaram um total de 40 bilhões.
A diferença de 20 bilhões de
dólares denota a importância que o setor tem na estabilização da
economia, na garantia de uma moeda forte e na baixa da inflação.
Mas será que em 2018 todos saíram
ganhando? Definitivamente não.
Neves pontua os produtores de
arroz e, especialmente, os suinocultores como os mais enfraquecidos neste
período.
Rações mais caras, menor volume
de exportações, em virtudes dos embargos comerciais, e um mercado interno que
‘‘andou de lado’’, fizeram com que a situação dos produtores de suínos fosse a
pior.
Por fim, o motivo pelo qual a
economia do Brasil não está crescendo os 2,8% previstos para o ano: a sombria
greve geral dos caminhoneiros.
Com cerca de 1% do PIB detonado e
a emergência de problemas estruturais e conjunturais, a greve dos transportes,
ocorrida no mês de maio, foi letal e trouxe prejuízos a toda cadeia.
Como, por exemplo, a política de
tabelamento. Decisão equivocada que ascende novos problemas estruturais, como o
investimento em frota própria dos caminhoneiros.
Para o palestrante, o aumento da
ociosidade de caminhões que já existia, sairá muito mais caro a partir de
agora.
No primeiro semestre de 2018,
foram vendidos 50% a mais de caminhões que no primeiro semestre de 2017.
Com esse panorama inicial estamos
prontos para falar do que vem pela frente.
Como o Brasil cresceu ao longo dos anos?
Em 1991, 58 milhões de toneladas
de grãos eram entregues por ano no Brasil.
O número era bem menor no âmbito
das carnes: há 27 anos, produzíamos apenas 5 milhões de toneladas de carne
bovina, 2,36 de frango e 1,05 de suínos.
Se compararmos com os números
atuais, o nosso gráfico de evolução na produção de grãos e carnes fica
uma verdadeira montanha.
Em 2017, passamos a produzir mais
de 230 milhões de toneladas de grãos.
Bovinos, frangos e suínos
cresceram 89%, 462% e 255%, respectivamente.
A agricultura extremamente
competitiva que temos hoje é o que permite que o setor projete uma quantidade
enorme de recursos no país, ajudando a expandir o campo e fomentando a geração
de renda e empregos.

Boa parte de toda essa produção
foi exportada e então são elencados alguns dados mais interessantes ainda.
Nos anos 2000, o Brasil vendia
para o mundo 4 bilhões de dólares referentes ao complexo soja.
17 anos depois, concentramos
31,717 bilhões com a venda de soja em grão, em farelo e óleo.
As carnes, hoje, aparecem em
segundo lugar na lista dos produtos que mais exportamos.
Em menos de 20 anos, o valor
total de vendas saltou de 1,957 bilhões de dólares para 15,474.
Na tabela abaixo podemos
acompanhar o desempenho de outras mercadorias importantes.
E ao que tudo indica, ainda
não é momento de pararmos de falar sobre a China.
Se olharmos para a tabela à
direita, veremos que atualmente esse é o principal país comprador dos mais
diferentes produtos que geramos.
A China está se configurando como
um verdadeiro ‘‘aspirador’’ que puxa a produção brasileira, investindo em torno
de 26,557 bilhões de dólares no nosso país.
Mesmo com as questões
trabalhistas e criminais que envolvem a produção agrícola hoje, como assaltos
às propriedades rurais, falta de infraestrutura, aumento dos tributos, da
escassez do crédito e das taxas de juros, ainda foi possível entregar
‘‘resultados fantásticos jogando em um estádio de condições ruins’’.
E as previsões confirmam que
entregaremos muito mais como veremos a partir de agora.
As projeções rumo a 1 trilhão de dólares
O principal fato que faz Fava
Neves acreditar no potencial das exportações é a demanda mundial por
alimentos.
Até 2070, seremos mais de 9
bilhões de pessoas, com 80% concentrando-se na Ásia e na África.
Atrelado a isso ainda temos
a migração do campo para a cidade e o aumento das
áreas destinadas para a produção de biocombustíveis, primeiro ponto
abordado sobre a relação comercial brasileira com a China.
Os chineses estão gostando de
carne e mais ainda da carne suína.
Entre 2005 e 2015, eles
aumentaram o consumo anual de carne de porco em 200 milhões de animais.
Na comparação, o Brasil é
uma potência agroambiental em relação a China.
As normas aqui já estabelecidas,
o código florestal, a capacidade de preservação e o aumento para 85 milhões de
hectares cultiváveis, em 10 anos, colocam-nos em vantagem produtiva diante da
demanda por carnes.
Ao alcançarmos 85 milhões de
hectares, estaremos ocupando apenas 10% do território brasileiro com a produção
de grãos.
Para Neves, o Brasil tem
capacidade sim de se expandir, em produtividade e em área, para abastecer o
gráfico colocado na sequência.
Saindo do campo das carnes e
partindo para o dos grãos, a justificativa do porquê o agronegócio alcançará um
trilhão de dólares, em 2027, vem justamente delas, das exportações.
Em 2017, o mundo comprou 147,7
milhões de toneladas de soja. Daqui a 10 anos, esse número será de 204,1
milhões de toneladas. Serão 56 milhões de toneladas de soja a mais
compradas mundo a fora.
Com a tonelada custando 400 mil
dólares, em 2027, o mundo vai comprar 22,5 bilhões de dólares a mais,
em soja, que em 2017.
A primeira linha da tabela mais
abaixo nos informa a quantidade de soja que o Brasil vendeu em 2017.
Das 147,7 milhões de toneladas
vendidas em todo o mundo, 63,1 milhões partiram do Brasil.
Em 2027, do total de 204,1 milhões
de toneladas que o mundo irá comprar de soja, 96,4 serão do Brasil.
Praticamente a metade de todo o comércio.
Em 10 anos, teremos 33,3 milhões
de toneladas a mais de soja, tendo o Brasil como ponto de partida.
Portanto, podemos afirmar
que o produtor rural brasileiro ofertará 13,3 bilhões de dólares a mais
do que ofertou em 2017.
Atualmente, a soja exporta 16
milhões de reais por dia.
Em resumo, o cálculo que resulta
em 1 trilhão de dólares gerados pelo agronegócio, em 2027, fica assim:
96 bilhões de dólares (total que
o Brasil vendeu de agronegócio para o mundo, em 2017) x 10 anos =
960 bilhões de dólares + adicional de crescimento esperado
pelas culturas citadas = 155 bilhões + açúcar/etanol/frutas/fumo/papel/celulose
(tudo que as cadeias envolvidas irão crescer) = 1,1 – 1,2 trilhões.
Até aqui, o professor afirmou que
mercado irá ter. O que não foi dito ainda é se teremos preços.
As projeções de preços das
commodities mundiais analisadas confirmam que para os próximos 10 anos, elas
devem ficar na média que temos hoje.
Ou seja: vai ter muito
mercado ao preço atual. Qual o desafio, portanto, do produtor rural para o
futuro?
O desafio é construir margens de
lucro e
resultados.
E a última parte do texto
apresenta as 3 formas que os produtores, as cooperativas e as empresas
terão para construir margens de lucro para os próximos 10 anos.
Construindo margens na cadeia produtiva do
agronegócio
Uma cadeia agroindustrial tem
início na compra das sementes, dos defensivos e das máquinas e termina apenas quando
o consumidor final tem acesso ao produto, seja nos supermercados ou nos
restaurantes.
No meio dos elos desta cadeia
existe a possibilidade de inserção de 3 formas que irão gerar margens
de lucro ao produtor rural.
Essas são as formas mais viáveis
para que aconteça uma mudança de comportamento e para que o produtor rural,
então, consiga atender às demandas já faladas.
1 – Economia digital e tecnologia
A fazenda conectada é
o melhor exemplo de como essa forma de economia já chegou até nós.
A barra de luzes para
aplicação de defensivos também. Ela reconhece onde está a planta
daninha e dá sinal para que a aplicação química aconteça apenas em cima da
invasora.
Não é mais uma aplicação por
hectare. É uma aplicação direta.
É o uso de menos produtos e, automaticamente,
a construção de margens de lucro.
Outro exemplo, presenciado por
Neves na última Agrishow, é um drone com capacidade de
carregamento de 150 litros.
Ele pulveriza a lavoura com
excepcionais 5 cm de distância da planta. Sem condutor e com custo operacional muito mais
baixo.
Mais uma vez, redução de
desperdício e construção de margens no agronegócio.
Os responsáveis por essa
fantástica criação afirmam que não apenas para a agricultura o equipamento será
útil, mas também para apagar incêndios e salvar de vidas em afogamentos.
Além disso, presenciamos um pacote
de inovações vindo da área genética.
Esses e muitos outros exemplos
permitem que Marcos Fava Neves afirme:
‘‘Morreu
o hectare,
nasceu
o metro quadrado’’.
A partir de agora, as
produções passarão a ser gerenciadas pelo metro quadrado, sem desperdício.
É fertilização e controle de
pragas localizados,
usufruindo de toda tecnologia que temos disponível.
E pequenos produtores terão
acesso a isso tudo via cooperativas e empresas prestadoras de serviços que já
estão se encaminhando para essa nova forma de gerir a agricultura.
2 – Economia circular e da integração
Alguns exemplos.
Usinas de cana no país já estão
investindo em unidades processadoras de milho junto com a cana.
Ao colocar o milho, a margem já
começa a ser construída, porque usa-se o mesmo terreno, o mesmo executivo, a
mesma segurança, a mesma equipe e engloba duas fábricas ao mesmo tempo.
1 tonelada de milho processada
rende 400 mil litros de etanol, que irá fazer parte da produção de cana, na
primeira usina.
Retira-se ainda de 300 a 330 kg
de um produto chamado DDG, uma espécie de bagaço do milho, altamente proteico e
que incentiva o confinamento do lado da usina.
É uma parte importante da ração
podendo ser retirada ali, na mesma produção, sem depender de transporte que se
chama confinamento integrado de milho e cana.
O confinamento gera esterco que,
ao ser tratado, volta como fertilizante do milho e da cana.
A ideia da economia circular é
basicamente de reduzir o número de insumos e sair mais produtos de uma mesma
produção.
3 – Economia coletiva ou de compartilhamento
Como ponto de partida para
exemplificar esse tipo de economia, Neves abarca uma realidade que vem mudando
nos maiores centros urbanos do país.
Em tempos de Uber, as pessoas
estão se dando conta que ter carro já não faz mais sentido.
O Uber tornou-se uma opção mais
barata, confortável e segura.
Somando seguro, depreciação,
combustível, estacionamento e outros, o preço de manutenção, por dia, de um
carro próprio é muito mais elevado que o preço desses novos modelos de
transporte.
Mas qual o impacto desses modelos
chamados de compartilhamento, que colocam quem oferta serviços em contato
com quem precisa desses serviços, na agricultura?
Também na agricultura essas
plataformas permitem a redução do volume de ativos, máquinas e tratores.
Eles passarão a ser melhores
utilizados e todos saberão quem tem o que para poder alugar.
Teremos os uber de plantio,
colheita e armazenamento.
Ao fazer isso, ambos os envolvidos
constroem margens e diminuem recursos.
O resumo de tudo que elencamos
até agora, com base na participação do professor Marcos Fava Neves no SEBRAE
Talks Agronegócio está em uma frase compartilhada por ele em uma de suas redes
sociais:
‘‘Há
muito mercado para conquistar em termos de volume, mas os preços serão estes,
portanto temos que construir margem via eficiência das cadeias produtivas
integradas: tecnologia/digital; economia circular e do compartilhamento’’.
*Marcos Fava Neves, nascido em
Lins (SP), é professor titular da FEA/USP em Ribeirão Preto. Engenheiro
Agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
(Esalq/USP) em 1991, mestre em Administração (Estratégias de Arrendamento
Industrial na Citricultura, FEA/USP, 1995), doutor em Administração
(Planejamento de Canais de Distribuição de Alimentos, FEA/USP, 1999),
livre-docente em Planejamento e Gestão Estratégica (2004) e professor titular
(2009). É também pós-graduado em Agribusiness & Marketing de Alimentos na
França (1995) e em Canais (Networks) de Distribuição de Alimentos na Holanda
(1998/1999). Foi coordenador do Pensa –Programa de Agronegócios da USP –, de
2005 a 2007, criador do Markestrat(Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing
e Estratégia da USP), em 2004 e foi chefe do Departamento de Administração em
duas gestões (2000-2002 e 2010-2012).